Vida aos retalhos
Como um longo pano desgastado pelo sol de mil verões, retalho a vida lentamente sem qualquer orientação.
É assim a arte do pensador adormecido num acordar profundo. Mergulhado num oceano caótico de pensamentos involuntários, tenta a todo o custo chegar à tona para voltar a sentir o medo. Devagar.
Aquecido no ventre, assim é a sensação de quem está vivo mas não respira. Inspirações violentas são obrigadas por um ofegante esforço que não tem qualquer objectivo.
Olhares, sons, sombras por entre o vidro e a atmosfera do invólucro translúcido. São tudo meras ilusões. Indiscretas como num olhar atrevido.
Quem quer que apareça não sabe o que vai encontrar. Nunca sabe o que vai encontrar. Só encontra o que não sabe. Aparece mas não sabe se encontra. Encontra o que não aparece.
Gestão de palavras, palavras mal digeridas. Engolidas em seco, aos retalhos. Como na vida...