O que está errado no marketing Open Source em Portugal
Com o aumento da divulgação da filosofia Open Source em Portugal, sinto que as acções levadas a cabo não estão a favorecer quem as promove num horizonte além do imediato.
Detecto algumas falhas na abordagem actual, que poderiam ser facilmente evitadas:
- a utilização da nomenclatura Open Source, ou pior ainda Software Livre --- este tipo de terminologia cria a falsa percepção de que o software é gratuito, ou livre de quaisquer encargos, quando na realidade poderá não o ser;
- a promoção da filosofia Open Source como argumento de venda --- em vez disso deveriam ser promovidos os benefícios da solução concreta apresentada;
- a oposição permanente a empresas que promovem ou vendem software de código fechado --- o factor diferenciador não deverá ser a oposição de filosofia em relação a essas empresas, mas sim os benefícios que a solução concreta apresenta;
- a venda de software à medida como sendo Open Source --- qualquer código desenvolvido à medida a pedido de um cliente é propriedade do mesmo, ressalvando os direitos de autor da entidade que escreveu o código;
- a não contribuição de código em projectos Open Source por empresas que dizem defender a filosofia --- qualquer entendido na matéria consegue rapidamente descobrir quantas linhas de código existem em projectos Open Source provenientes de uma determinada empresa;
- o argumento de que o Open Source permite que o cliente veja o código e faça alterações --- vai directamente contra a promoção de "serviços" em torno de aplicações instaladas e o cliente sente-se baralhado quando confrontado com ambos os argumentos.
Em resumo: mais tarde ou mais cedo, praticamente todas as empresas de desenvolvimento ou revenda de software irão oferecer pelo menos uma solução Open Source. Se não existir uma diferenciação que agarre o consumidor à empresa ou marca, esta será rapidamente diluida quando o conceito se banalizar.
Comentários
Comentário de Alcides Fonseca
Parabéns pelo excelente post!
Concordo plenamente com o que disseste, nomeadamente no facto de muitas empresas opensource "atacarem" as que vendem software proprietárias em vez de reunir esforços para divulgar aquilo em que acreditam.
E sim, é uma pena as empresas que acreditam no OpenSource não contribuirem na comunidade a nível de código (a nível de marketing se calhar contribuem), mas na minha opinião é um dos principais defeitos do Software Livre: a natureza humana é preguiçosa e egoista. Enquanto houver pessoas a fazê-lo vão sempre ficar a espera que o façam.
Escrito em domingo, 21 de outubro de 2007 às 01:15 | Permalink
Comentário de carlos
Grande artigo. Claro e objectivo.
Escrito em domingo, 21 de outubro de 2007 às 01:26 | Permalink
Comentário de RuiSeabra
Uma pessoa normal associa livre a liberdade.
Se estivesses a falar da nomenclatura inglesa, que é homónima com gratuito, compreenderia. Mas o termo português tem muito pouco a ver com gratuito.
Tens entrada livre num taxi, experimenta não pagar...
Ser Software Livre é um dos vários argumentos de venda. Não é o único. Para além disso não conheço empresa que não promova os benefícios da solução concreta apresentada, ou então não a venderiam a ninguém. Ser Software Livre é meramente um dos seus principais benefícios, mas está longe de ser o único.
Falso: um modelo praticamente exclui o outro. A sobrevivência de um modelo depende do falhanço do outro. Quem acredita na interoperabilidade com "segredos" desconhecidos, é inocente demais para estar no mercado ou não percebe de programação.
Falso: pode ser acordado no acto da encomenda outra entidade como sendo a detentora dos direitos, nomeadamente quem escreve.
Único ponto em que concordo contigo: quem não contribui de volta e utiliza comercialmente, embora no seu direito concedido pelos desenvolvedores, apenas está a tirar partido deles de forma gratuita.
Na prática isto é muito raro, uma vez que é muito mais caro para uma empresa manter o seu "fork" do que diluir os custos de manutenção partilhando as modificações com a comunidade.
Falso. O argumento real é que o cliente não é preso a uma situação de lock-in, e em vez de negociar uma situação de dependência, negoceia uma parceria.
Lamento, mas é um post muito infeliz, e um verdadeiro tiro no pé, se o teu negócio depende de Software Livre.
Escrito em domingo, 21 de outubro de 2007 às 01:31 | Permalink
Comentário de RuiSeabra
Não te esqueças de incluir o lobby político por leis que almejam aniquilar software livre, como a EUCD, a defunta directiva de patentes de software, a IPRED, a IPRED2, negócios de bastidores sem qualquer concurso que beneficiam a Microsoft e excluem todos os outros parceiros no mercado, etc.
Mas é verdade, tu vendeste a alma...
Escrito em domingo, 21 de outubro de 2007 às 01:36 | Permalink
Comentário de Bruno Pedro
Rui, obrigado pelos comentários.
Neste artigo estou-me a referir ao marketing e aos consumidores, não à comunidade de programadores.
Estou-me a referir à abordagem comercial perante alguém que está habituado a conhecer os benefícios do que vai pagar antes de comprar.
Estou-me a referir a potenciais clientes que utilizam no seu dia-a-dia soluções de empresas que promovem ou vendem código fechado. Potenciais clientes que não se querem ver confrontados no acto de compra com ideologias de oposição ao que eles próprios usam e defendem.
Refiro-me a potenciais clientes que, regra geral, não possuem conhecimentos de programação, nem tão pouco saberiam como resolver um problema se ele surgisse.
Esses potenciais clientes são aqueles que geram o negócio. São a realidade potuguesa. Para eles, pouco interessa a filosofia por detrás da venda. O que lhes interessa é a solução ser boa e a empresa que a vende ser credível e competente perante a solução que apresenta.
Acerca da afirmação:
Reforço a minha abordagem: o meu negócio não depende de Software Livre. O meu negócio depende das soluções que eu apresento e da minha credibilidade e competência técnica.
Escrito em domingo, 21 de outubro de 2007 às 02:34 | Permalink
Comentário de RuiSeabra
Estar a esconder isso, é como virares-te para os teus clientes e dizer: estão habituados ao Windows, mas o meu é muito melhor tecnicamente. Eles lá querem saber, o que têm funciona na mesma, certo? Isto é só para mostrar que o teu argumento também vale para o ponto de vista puramente técnico (aliás diria que vale muito mais para aí, uma vez que a maioria das pessoas são um pouco tecnófobas).
Isto só é verdade se, removendo todo o Software Livre de um dia para o outro, o teu negócio continuar saudável e em bom caminho.Caso contrário, não vistas palas nem recomendes à malta que as vista :)
Escrito em domingo, 21 de outubro de 2007 às 10:17 | Permalink
Comentário de Bruno Pedro
Como assim? Só pelo facto de eu mencionar que vendo Software Livre, há um maior respeito mútuo? Estou confuso.
Relativamente ao ponto 3. do meu artigo, retiro duas frases dos comentários que demonstram claramente a abordagem de oposição:
Ou seja, até nesta pequena discussão é aparente a estratégia de oposição que, a meu ver, só beneficia as empresas ou marcas mencionadas.
Acerca da dependência em relação ao Software Livre, mais concretamente da frase:
Reductio ad Absurdum. Primeiro, porque o Software Livre não vai desaparecer de um dia para o outro. Segundo, mesmo que fosse eu teria outras estratégias para fazer face a essa questão.
Só para terminar:
Esta frase foi altamente despropositada pondo mesmo em risco a credibilidade do seu autor.
É precisamente esta a estratégia de comunicação que eu não defendo.
Escrito em domingo, 21 de outubro de 2007 às 12:28 | Permalink
Comentário de Alcides Fonseca
Rui, o teu comentário foi suficiente to prove my point.
Ninguém chamou para aqui as empresas que produzem software proprietário, mas no entanto conseguiste atacá-las no teu post, quando poderias ter apenas falado no benefício de escolher as opensource. Tal e qual o que o Bruno escreveu.
Escrito em domingo, 21 de outubro de 2007 às 13:22 | Permalink
Comentário de Victor
Alcides é mais forte do que ele...
E gosto particularmente do exercício de FUD, ao ameaçar que não há lugar para os dois modelos, no entanto não restringe as opções às pessoas, porque podemos sempre escolher entre o que ele defende ou o que ele recomenda, o que ele evangeliza, o que ele...
Obviamente que poucas das coisas que afirma são para levar a sério, aliás quando começa a falar em serviços nem ele percebe o que está a dizer.
Escrito em domingo, 21 de outubro de 2007 às 14:12 | Permalink