Invenção ou inovação?
O que faz com que uma ideia seja considerada interessante e se possa transformar num projecto ou até num produto? Por que razão grande parte dos produtos são baseados em algo já existente?
Invenção vs. inovação
Para melhor perceber como uma ideia se pode transformar num produto importa compreender a diferença entre invenção e inovação. Fagerberg, em "Innovation - A guide to the literature" (PDF), apresenta uma clara distinção entre os dois termos:
Invenção é a primeira ocorrência de uma ideia para um novo produto ou processo, enquanto que inovação é a primeira tentativa de pô-la em prática. — traduzido do original, p. 5, §1.2 "What is innovation", negritos meus
Enquanto que a invenção não passa da ocorrência de uma ideia, com mais ou menos experimentalismo, a inovação envolve a criação de algo que materialize num produto ou processo essa mesma ideia. O próprio governo norte americano atribui uma distinção semelhante em "Between Invention and Innovation" (PDF), p.1, "Definition of Terms":
O termo "invenção" é usado para definir uma ideia promissora de um produto ou serviço (...). Entende-se por "inovação" a entrada com sucesso de um novo produto no mercado. — traduzido do original, negritos meus
Uma outra interpretação é apresentada por Buxton, em "Innovation vs. Invention" (PDF). Nesta análise, a inovação é vista como um processo iterativo, não envolvendo necessariamente a criação de um produto ou serviço:
Inovação tem mais a ver com a prospecção, refinação e adição de valor, do que com a pura invenção. (...) Muitas vezes a obsessão está em 'inventar' algo totalmente único, em vez de extrair valor a partir da compreensão criativa do que já é conhecido. — traduzido do original, negritos meus
É também interessante verificar que o autor identifica claramente o síndroma "not built here", apontando o dedo a quem prefere reinventar a roda em vez de juntar peças já desenvolvidas por terceiros. Muitas vezes é este mesmo factor que dilata o tempo necessário à transformação de uma ideia num novo produto.
A transformação de uma ideia — ou de uma invenção — num produto consiste então num processo iterativo, em que são consideradas prévias invenções que possam acelerar o seu desenvolvimento. Muitas vezes são necessárias várias tentativas até que o produto esteja ajustado ao mercado.
Comentários
Comentário de Eduardo
Bruno, eu gostava mesmo era de saber qual é a tua opinião. Dessas alternativas escolhes alguma ou tens a tua própria versão?
Eu tenho muita dificuldade em associar obrigatoriamente inovação e um produto de sucesso. São várias as inovações (tal como as entendo) cujo valor só foi reconhecido quando aplicadas no contexto certo.
Esse mérito de escolher as inovações certas e remisturá-las num produto novo é em si uma inovação ou uma invenção? :)
Escrito em terça-feira, 25 de março de 2008 às 02:26 | Permalink
Comentário de Alves
Posso depreender então que a inovação é uma invenção posta em prática?
De qualquer forma, existem dois tipos de inovação bastante diferentes: incremental e disruptiva. A inovação que pareces advogar no artigo é a incremental - fazer evoluir um produto/serviço através de pequenas "invenções", feeback do consumidor, etc.
A inovação disruptiva, sendo muito mais arriscada, tem um potencial tremendamente superior - pegar numa invenção que vira do avesso a forma como algo era feito, aguentar o cepticismo inicial dos consumidores e esperar que a coisa pegue.
Por exemplo, o telemóvel foi uma inovação disruptiva em relação ao telefone (e será provavelmente a causa da sua morte) mas, quando apareceu, poucos se mostraram interessados. Aliás, provavelmente se o telemóvel tivesse sido alvo de uma análise de mercado clássica, com inquéritos de opinião como se faz para a maioria dos produtos, a conclusão teria sido: não avançar.
Escrito em terça-feira, 25 de março de 2008 às 09:59 | Permalink
Comentário de Bruno Pedro
Eduardo: a minha opinião é que existe, de facto, a invenção, mas a partir desse momento pode-se avançar para a criação de um produto novo, inovando. A invenção pura, que pode passar pela criação de protótipos, não é considerada inovação, porque não afectou o mercado.
Alves: não reinventar a roda não significa que não possam ser criados produtos disruptivos. Por vezes basta juntar várias invenções prévias para criar algo que as destrona como processos singulares.
Escrito em terça-feira, 25 de março de 2008 às 13:20 | Permalink
Comentário de Rui Miguel Silva Seabra
Muito cuidado com esses termos, especialmente quando utilizados por políticos ou advogados, pois já são gíria frequente de double-think.
Dizem "inovação" mas referem-se a "primeiro a registar uma patente".
Dizem "invenção" mas referem-se a "patente registada".
Outro grande problema é chamar a software que é escrito "invenção", que é o mesmo que chamar a um livro "invenção" ou um quadro "invenção", o que é bastante ridículo.
Outra gíria frequente é "técnico", para eles "utilizar um computador" é "técnico".
Sob esta perspectiva retorcida, argumentam que software pode ser um "invento técnico inovador" e tentam subverter as leis por forma a tentar registar patentes de software.
O melhor quando se fala de software é pura e simplesmente evitar usar estes termos enganadores, a menos que sejam enquadrados num contexto ao qual não seja possível atribuir outro significado.
Escrito em quinta-feira, 27 de março de 2008 às 22:57 | Permalink