Capital Semente
Imaginem que tinham neste momento acesso a €1M. O que fariam exactamente? Muitos certamente reformar-se-iam de imediato, talvez tirando umas férias prolongadas ou fazendo uma viagem excêntrica. Outros pagariam todas as suas dívidas e comprariam tudo o que sempre sonharam mas nunca puderam ter. Alguns pensariam em tentar multiplicar o valor investindo-o em startups tecnológicas.
Imagino-me neste último grupo e, se tal acontecesse, era mesmo isso que faria: investiria em startups tecnológicas num estado inicial de desenvolvimento — de facto, no maior número de projectos que conseguisse e no seu estado mais inicial possível.
Mas faria mais do que um simples investimento monetário, porque o melhor investidor não é aquele que só passa o cheque mas também aquele que ajuda a startup de todas as formas possíveis: estabelecendo contactos com outras startups e potenciais novos investidores, estando presente em eventos de interesse para os projectos investidos e, o mais importante, participando activamente nas comunidades — off- e online — em que essas startups se movimentam ou pretendem movimentar.
Estas acções, todas juntas, fortalecem o investidor e, em reflexo, as startups que beneficiam do seu investimento. Só através de uma participação activa é possível catapultar um projecto numa fase inicial de desenvolvimento, transformando-o eventualmente numa empresa lucrativa, para então vir a receber os dividendos do investimento inicial. Pelo contrário, se a imagem do investidor for fraca ou não adequada ao meio em que pretende investir, as startups investidas serão certamente prejudicadas.
Este género de investimento tem um nome específico: Capital Semente (ou em Inglês Seed Capital ou ainda Seed Money). O próprio nome revela algumas das características atrás referidas: não basta lançar uma semente e esperar que chova e que a árvore cresça e dê frutos, é mais do que isso. Da mesma forma, não basta lançar uma só semente e investir tudo nela: quanto mais área for coberta, mais hipóteses existem de algumas das sementes se transformarem e darem frutos.
É esta sem dúvida a melhor estratégia para este tipo de investimento: seleccionar um número razoável de startups e investir nelas de acordo com o montante total disponível. Para o cenário aqui descrito criaria um fundo de €300K (€150K por ano) para custos operacionais de 2 anos (salários, viagens, conferências, etc.) e investiria os restantes €700K da seguinte forma:
- €200K em 2 projectos (€100K em cada um) cujo objectivo seja lançar uma plataforma tecnológica ou software de gestão de infraestrutura;
- €400K em 8 projectos (€50K em cada um) cujo objectivo seja criar uma aplicação direccionada ao utilizador final e que facilite a sua participação numa ou mais plataformas online;
- €100K em 10 projectos (€10K em cada um) cujo objectivo seja lidar com conteúdos já existentes ou criados por terceiros, manipulando a sua distribuição e facilitando a sua descoberta.
Esta estratégia permitiria criar um portfolio de 20 startups em que todos os investimentos teriam o horizonte temporal de 1 ano, ou seja, ao final do 12º mês seria feita uma avaliação de todos os projectos e seria tomada uma das seguintes acções:
- não continuar o investimento porque o projecto se revelou um falhanço e não existe nenhuma hipótese de o salvar;
- continuar o investimento com um valor semelhante ao anterior, para que o projecto consiga atingir os objectivos definidos inicialmente;
- aumentar o investimento porque o projecto está, manifestamente, a receber bastante atenção do público e precisa do investimento para exercer actividades comerciais ou ampliar a base de clientes;
- aumentar o investimento com novos investidores em projectos muito próximos de obterem grande rentabilidade;
- alienar posição a compradores ou a novos investidores quando a oferta se revelar interessante em relação ao estado do projecto investido.
Durante este horizonte temporal de 1 ano, estaria totalmente activo em todos os meios ao meu alcance de modo a beneficiar ao máximo os projectos investidos. Além disso tentaria estar o mais próximo possível das startups, participando em reuniões mensais de avaliação do estado do desenvolvimento e noutras acções de gestão.
O facto de poder vir a ter participações em 20 empresas potencia ainda algo mais: criação de um eco-sistema de startups com parcerias, eventual partilha de conhecimentos e de recursos, partilha de espaço, acções conjuntas, etc. E isto seria só o início porque no segundo ano ainda haveria mais para dar e para fazer.
E vocês, o que fariam com €1M?


